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CONFERÊNCIA MAGNA |
REDE NACIONAL INTERLOCUTORES |
PROJETO NOVO MODELO DE AÇÃO CONTINUADA |
PRESTAÇÃO DE CONTAS |
CONFERÊNCIA
MAGNA
A QUESTÃO
SOCIAL E A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
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Profª. Alba Pinho de Carvalho*, profere a Conferência Magna "A Questão Social no Brasil e a Política de Assistência Social" ladeada pelo Sr. Cleílson Gomes, Coordenador da Comissão Estadual do Programa Ação Continuada e pela Dra. Regina Praciano, Presidente do Conselho Estadual de Assistência Social do Ceará. |
É um momento de júbilo,
no exercício acadêmico-político, participar da abertura dessa I Conferência
Nacional de Ação Continuada que, efetivamente, marca a instituição de um
novo fórum nacional de debates, de mobilização, de articulação,
envolvendo Estado/sociedade civil, em torno do repensar de um programa histórico,
em execução há várias décadas, no campo da Assistência Social: o Programa
de Ação Continuada – PAC. Indiscutivelmente, essa I Conferência publiciza, ou
seja, insere na esfera pública, discussões que, no cotidiano,
desenvolvem-se no espaço mais doméstico, mais particular das milhares de
entidades executoras espalhadas nesse imenso e heterogêneo Brasil.
E, esse novo fórum
nacional, aqui oficialmente instituído, possui um grande potencial de debate e
mobilização, considerando a própria expressividade numérica dos atores
envolvidos com o Programa Ação Continuada: são 5.507 prefeituras e 6.797
entidades filantrópicas conveniadas.
Em verdade, é pretensão
dessa I Conferência a criação de um movimento dos atores sociais
envolvidos no Programa de Ação Continuada, no sentido da formação
de uma Rede Nacional de Interlocutores do PAC: inicialmente, Interlocutores
Estaduais que irão trabalhar para a construção dos Interlocutores
Municipais. Essa rede de
interlocutores – que aqui se instaura – com certeza, irá redesenhar
esse Programa de Ação Continuada, dentro do próprio percurso de redesenho
da Assistência Social como política pública que, a partir da LOAS, vem se
fazendo ao longo dos últimos oito anos, numa verdadeira saga: “a saga
da Assistência Social no Brasil do Ajuste.” É a possibilidade de efetivar um processo de redefinição
desse programa para que, de fato, possa constituir uma das bases programáticas
da Política de Assistência Social, na perspectiva da afirmação de padrões
dignos de proteção social.
Nesta
perspectiva, essa I Conferência coloca em discussão uma agenda de
reivindicações - agenda em construção, que, aqui, será objeto de análises
e proposições. E, na pauta dessa
agenda impõe-se cinco reivindicações, consideradas eixos básicos
no redesenho do PAC:
·
reajuste dos valores de referência ou, na linguagem mais
conhecida, reajuste de
“per-capitas”;
·
aumento de meta, ou seja, ampliação de vagas;
·
flexibilização na aplicação dos recursos;
·
desburocratização;
·
revitalização das entidades.
Tal agenda está
fundada na luta pela garantia de direitos do público-alvo do PAC, tendo
como horizonte contribuir nos processos de inclusão dos excluídos, dos
que estão atingidos, na sua dignidade humana, nos circuitos da miséria, da
indigência que se amplia face à ampliação das desigualdades, nesse Brasil em
que vivemos.
E, no cenário
dessa I Conferência Nacional de Ação Continuada, essa minha fala “A
Questão Social e a Política de Assistência Social” constitui uma discussão
de base, uma “discussão de fundo” que visa demarcar alguns referenciais
analíticos para as discussões específicas dessa agenda do PAC (que se
desenvolverá na 6ª feira e no sábado).
Nessa
perspectiva, estruturei essa minha intervenção dentro de dois enfoques,
essencialmente articulados na tessitura de uma reflexão específica, na ótica
do social, sobre esse “Brasil Real” (num duplo sentido: “Brasil do
Real” e “Brasil da real”):
·
primeiro, um mergulho analítico – rápido e de fôlego – no
“Brasil Real”, traçando uma panorâmica da Questão Social Brasileira
Contemporânea, ou seja, a Questão Social nas configurações específicas
da década de 90, anos 2000.
·
a partir daí, um balanço avaliativo da saga da Política de Assistência
Social nesse “Brasil Real”, destacando alguns dilemas fundantes
que estão na base das tensões e dilemas vivenciados no Programa de Ação
Continuada, enquanto programa constituinte da Política de Assistência
Social.
I - MERGULHO ANALÍTICO
NO “BRASIL REAL”: UMA PANORÂMICA DA QUESTÃO SOCIAL BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
No esforço
reflexivo para desenhar uma panorâmica da Questão Social Brasileira Contemporânea,
parto da demarcação de três traços marcantes no delineamento dos
contornos da “cara do Brasil Real” que se vem gestando nos últimos doze
anos, ou mais precisamente, na “Era Collor” e, de modo particular, na
“Era FHC”.
Primeiro traço: tem-se em curso um BRASIL MODIFICADO, com PROFUNDAS
MUDANÇAS que emerge dos processos da inserção brasileira à nova ordem
do capital, nos circuitos da chamada “globalização”, dentro do modelo
imposto pelos centros hegemônicos e acatado, de forma submissa, sem restrições,
pelas elites políticas brasileiras. A
rigor, é o Brasil emergente do que se convencionou chamar de “ajuste
estrutural brasileiro”, ou, “ajuste brasileiro”, em curso no
decorrer da década de 90 até os dias atuais, ou seja, nos últimos 12 anos.
De fato, nesse “Brasil do Ajuste”, vem ocorrendo mudanças
radicais, atingindo profundamente a estrutura e infraestrutura econômica,
as condições sociais e a soberania. Tais
mudanças encarnam as marcas desse ajuste brasileiro: ajuste
subordinado, periférico, passivo, de alto risco e, sobretudo, seletivo e
excludente, em função dos interesses e da própria dinâmica do capital,
secundarizando os interesses da população brasileira.
Em verdade, são mudanças substantivas na economia, na política, na
cultura que intensificam a heterogeneidade brasileira, acirrando as
desigualdades sociais no curso de processos de exclusão, tornando a Questão
Social mais grave e complexa, parecendo configurar mesmo um aprofundamento
estrutural da “fragmentação brasileira”.
É uma pesada herança do ajuste a exigir tempo para ser revertida.
É esse um Brasil, em larga medida, desconhecido, pois tais mudanças,
por serem recentes, estando mesmo em curso, ainda não foram suficientemente
dominadas no plano analítico. É o
“Brasil se fazendo”, a ser desvendado e compreendido.
Segundo traço:
tem-se um BRASIL COM UMA SOCIEDADE EXTREMAMENTE COMPLEXA, DIFERENCIADA,
CONTRADITÓRIA, HETEROGÊNEA E PERMEADA POR AMBIVALÊNCIAS DE TODOS OS TIPOS.
De fato, na configuração de Vera Telles “é uma sociedade em que a
descoberta da lei e dos direitos convive com uma incivilidade cotidiana feita de
violência, preconceitos e discriminações; em que existe uma espantosa
confusão entre direitos e privilégios; em que a defesa de interesses se
faz em um terreno muito ambíguo que desfaz as fronteiras entre a conquista
de direitos legítimos e o mais estreito corporativismo; em que a experiência
democrática coexiste com a aceitação ou mesmo conivência com as práticas as
mais autoritárias; em que a demanda por direitos se faz muitas vezes numa combinação
aberta ou encoberta com práticas renovadas de clientelismo e favoritismo
que repõem diferenças onde deveriam prevalecer critérios públicos
igualitários”. (TELLES, 1999:141)
Em verdade, a sociedade
brasileira contemporânea é uma sociedade atravessada por enormes
disparidades de renda, de cultura, de valores e, também, por profundas
desigualdades de acesso a mecanismos de representação e participação política.
Inegavelmente, é uma sociedade
fraturada e, mesmo apartada, em que as transformações e modernizações
inerentes à nova ordem do capital vêm se processando em ritmo avassalador, sem
que se tenha garantido os princípios básicos de igualdade e patamares mínimos
de cidadania a expressivo e crescente contingente da população.
Às velhas desigualdades somam-se novas desigualdades, numa
complexificação da Questão Social.
Nesses circuitos contraditórios de desigualdades e fragmentações, de avanços
nas lutas sociais e ambivalências sócio-políticas e culturais, a sociedade
brasileira, hoje, vem gerando uma conflituosidade inédita, perpassando
todas as dimensões da vida social. Segundo
Vera Telles é “nessa dinâmica de conflitos que se ancoram esperanças de
cidadania e generalização de direitos”.
São as lutas garantindo conquistas sociais.
E, por último, o terceiro
traço: tem-se UM BRASIL QUE VIVENCIA UMA CONJUNTURA POLÍTICO-CULTURAL
SOB O SIGNO DA INSEGURANÇA.
Inegavelmente, vulnerabilidade,
incerteza, instabilidade são, hoje, referências-chave no imaginário da
sociedade brasileira, indicando uma “cultura da insegurança” que
parece difundir-se. A sociedade
brasileira transformou-se numa sociedade que dissemina insegurança em larga
escala e de múltiplas formas. De
fato, multiplicam-se as incertezas na vida brasileira, parecendo cortar as
possibilidades de projetos, de perspectivas de vida.
Toda essa cultura da
vulnerabilidade vem gestando uma insatisfação com os rumos do Brasil,
gerando um sentimento de mudança que parece atravessar a sociedade: sentimento
profundo, complexo, difuso que precisa ser trabalhado politicamente no
assumir de novos rumos para o Brasil. Em
verdade, analistas apontam que estamos entrando num novo período de luta política
no Brasil bem diferente daquele dos últimos 10 anos.
Esses três traços
marcantes na vida brasileira – profundas mudanças; sociedade heterogênea,
contraditória, ambivalente, conflituosa; insegurança, insatisfação,
sentimento de mudança – apontam para uma COMPLEXIFICAÇÃO DA QUESTÃO
SOCIAL NO BRASIL DO AJUSTE.
Concretamente, o
que significa esta complexificação da Questão Social no Brasil de nossos
dias, Brasil onde vivemos e atuamos?
A rigor, ao se falar de
complexificação da Questão Social Brasileira, o que se quer destacar é o agravamento
da Questão Social, no sentido do aprofundamento das desigualdades
sociais. Em verdade, ao longo
dos últimos doze anos, no percurso do ajuste brasileiro à nova ordem do
capital - ajuste seletivo e excludente - o cenário de desigualdades
ficou mais complicado e, por conseqüência, mais grave, aglutinando,
numa perversa simbiose, velhas e novas desigualdades, ou seja, somam-se às
velhas e históricas desigualdades, novas desigualdades, advindas de novos
mecanismos geradores de exclusão que atingem as relações sociais em geral
e, particularmente, as relações de trabalho.
Concretamente crescem e ampliam-se as desigualdades, num país que
ostenta o triste e perverso record de campeão de concentração de renda e
riqueza. O abismo entre pobres e
ricos configura um verdadeiro e crescente processo de apartação social.
Segundo dados do IBGE – Indicadores Sociais 1999 – um rico ganha o
mesmo que 50 pobres; 1% da população brasileira detém 13,8% da renda total do
país e os 50% mais pobres ficam com 13,5%.
Conforme o IPEA, 60 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de
pobreza (80 reais por mês) e, dentre estes, 24 milhões vivem abaixo da linha
de indigência, isto é, com 40 reais por mês.
A década de 90/anos 2000 vem vivenciando a eliminação de postos de
trabalho e a ampliação crescente das taxas de desemprego, o aumento das formas
de trabalho precarizado, o achatamento salarial, a expansão do setor informal
vinculado a um perverso empobrecimento, o desmonte dos direitos sociais.
Assim, afirma-se que a
Questão Social Brasileira Contemporânea MUDOU DE NATUREZA, numa
peculiar metamorfose: DA DESIGUALDADE À EXCLUSÃO. Tal mudança de natureza fica claro quando se examina as
mudanças da pobreza no “Brasil Real”: a pobreza mudou de
forma, de âmbito e de conseqüências - como bem avalia José de Souza
Martins - podendo-se falar de “nova pobreza”.
E esta “nova pobreza” é mais do que privação econômica,
caracterizando-se por não oferecer alternativa a ninguém, caindo sobre o
destino dos pobres como uma condenação irremediável.
Vera Teles, ao analisar a pobreza contemporânea no Brasil de nossos dias, o
“Brasil Moderno”, afirma que essa pobreza transborda
dos lugares onde esteve confinada “desde sempre”, atingindo os
trabalhadores urbanos integrados nos centros dinâmicos da economia do país. De fato, a pobreza hoje transborda, atingindo a classe média,
os setores antes protegidos. Inegavelmente, tem-se um novo perfil da Pobreza
no Brasil do Ajuste. Uma das expressões na vida brasileira dessa “pobreza de
novo tipo” é a crise da Mobilidade
Social no “Brasil do Ajuste”: a mobilidade está bloqueada,
interrompeu-se a “mobilidade social para cima” em que todos, dentro de
determinados espaços sociais, movimentavam-se, permitindo, a cada nova geração,
uma melhor situação relativa à anterior.
Hoje, segundo Marcio Pochmann, a sociedade brasileira passa para a fase
da imobilidade social, ou até da regressão social.
Neste mesmo sentido, analisa César Benjamin que os anos 90 cortam a
trajetória da mobilidade social ascendente no Brasil.
Afirma ele que o Brasil de hoje não
é um país em que a nova geração olhe para trás e diga: “Eu
tenho um horizonte mais seguro ou melhor que o dos meus pais”.
Pelo contrário, a insegurança e a incerteza trava, embaça, escurece o
horizonte dos jovens, particularmente os jovens pobres que sobrevivem na zona
rural nos milhares de municípios brasileiros, nas periferias urbanas das
cidades e metrópoles.
Em verdade, nesse
circuito da aglutinação de velhas e novas desigualdades, da nova pobreza, da
crise de mobilidade social, da pobreza sem projetos de vida, da juventude sem
horizontes, estamos face a face com processos de EXCLUSÃO SOCIAL. Indiscutivelmente, o “Brasil Real” – em que vivemos,
sofremos, trabalhamos, criamos – é marcado pela EXCLUSÃO SOCIAL.
O que quer dizer precisamente este fenômeno contemporâneo da exclusão
social? Concretamente, o que
significa essa exclusão social como marca da vida social no Brasil de nossos
dias?
A rigor, exclusão
social não significa, em absoluto, que esse contingente populacional excluído
esteja fora da dinâmica do capitalismo em curso, esteja fora do sistema econômico.
De fato, o capitalismo de nossos dias, perversamente, busca incorporar
essa população via consumo e via ciclos marginais de atividades e formas de
vida de excluídos: formas incipientes de trabalho, pontuais, itinerantes,
extremamente precárias; rota do tráfico e da violência; prostituição, vidas
no limite, desamparo social, ruptura de laços sociais.
Em verdade, quando se fala de exclusão social, fala-se de processos econômicos,
políticos e culturais excludentes, processos de marginalização que implicam
em não ter um lugar social, ou seja, sem uma posição à qual estejam
associados uma utilidade social e um reconhecimento público.
De fato, nos percursos
seletivos de inserção do Brasil à nova ordem do capital, uma parte
significativa da população brasileira não tem um lugar social, não tem uma
posição social reconhecida e valorizada.
Concretamente, significa não ter acesso a formas e tipos de trabalho
onde possam afirmar sua identidade como cidadão, que viabilizem seu acesso a
bens e serviços sociais dentro de um padrão de vida digno, que propiciem sua
efetiva inserção em redes de proteção social. Logo, no limite, exclusão social significa não ter
acesso aos mais elementares bens, serviços e redes de proteção social. É
estar privado da possibilidade de realizar-se, de realizar sua vida de forma
digna, de sentir-se útil na vida social e, assim, estar desprotegido,
desassistido. Hoje, a desproteção
social é uma dimensão constitutiva da exclusão social na vida brasileira
contemporânea.
E, no Brasil dos
nossos dias, como se gesta esta exclusão social? Que mecanismos geram e
sustentam esses processos excludentes que marginalizam amplos contingentes da
população brasileira, atingindo fortemente os jovens?
No cenário do Brasil
Contemporâneo, os processos de exclusão social se dão pela via da VULNERABILIZAÇÃO DO TRABALHO
O capital, nos
circuitos perversos da chamada “globalização”, constitui uma nova organização
/ desorganização do mundo do trabalho, fundada na flexibilização, na fragmentação,
na exclusão. Assim, emerge
e institui-se – no dizer de Giovanni Alves – “o novo e precário
Mundo do Trabalho no Brasil”, decorrente da nova ofensiva do capital
na produção. Em verdade, o Brasil
passou a incorporar uma pauta de problemas e questões característicos do mundo
do trabalho no cenário do capitalismo mundial.
Concretamente, essa
vulnerabilização do trabalho manifesta-se na transformação da problemática
do emprego, em termos de dois fenômenos essencialmente imbricados no atual
cenário brasileiro: o aumento do desemprego estrutural, em taxas
crescentes e a precarização das condições de trabalho, também
crescente, no tocante ao trabalho aviltado, sem proteções e garantias.
Sustenta Marcio Pochmann que “o Brasil possui, hoje, o maior
desemprego verificado desde a transição, no final do séc. XIX, do regime
escravista para o assalariado, atingindo os mais diversos segmentos da força de
trabalho”. Convivendo com
esse perverso quadro do desemprego, como uma de suas graves decorrências,
tem-se, no Brasil Real, uma precarização do trabalho que se expressa
numa dupla dimensão:
- na precariedade do
emprego e salário, penetrando no núcleo integrado da classe dos
trabalhadores assalariados, atingindo portanto, os que ainda mantém vínculo
formal de emprego. Um dado
importante a considerar é que, no “Brasil Real”, o salário mínimo é um
dos mais baixos do mundo.
-
na expansão e avanço do setor informal.
Merece atenção especial na análise da precarização do trabalho, o estudo do setor informal, trabalhadores cujas atividades encontram-se à margem de qualquer regulamentação e de controle do poder público. É um amplo contingente da classe trabalhadora que, ao romper o vínculo empregatício formal, sobrevive sem a garantia de direitos e benefícios sociais. Em verdade,vivenciam formas perversas de exploração do trabalho, exercendo atividades precárias, trabalhando longas jornadas para ganhar o mínimo.
Hoje, no “Brasil
Real”, o setor informal envolve quase a metade da população ocupada.
Os dados são reveladores da complexificação das desigualdades via
precarização no trabalho informal, que, de fato, se expande vinculado a um
perverso agravamento da pobreza: de acordo com o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE – a partir do censo de 2000, 50% da população
ocupada do País – 12,4 milhões de trabalhadores – não tem carteira
assinada. São pessoas sem direito
à Previdência, ao Programa de Integração Social (PIS) e outros benefícios
como férias, 13º salário e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).
Desses trabalhadores informais, apenas 5% contribuem com a Previdência
Social. Incontestavelmente, o
emprego sem carteira acabou se transformando na única saída para a sobrevivência
dos trabalhadores, configurando uma tendência estrutural que se aprofunda no
“Brasil do Ajuste”, gerando um novo perfil da pobreza brasileira.
Segundo Marcelo Néri – Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação
Getúlio Vargas (FGV) – 54% dos pobres do País estão em famílias chefiadas
por trabalhadores informais, constituindo um segmento desprovido de assistência
e programas sociais. Ademais, é
expressiva a participação de mulheres, de negros, de crianças, de pessoas
acima de 40 anos e com menor grau de escolaridade nesse setor informal
desprotegido e desassistido que, de fato, constitui o desaguadouro de
trabalhadores que são alvo de maior discriminação e encontram maior
dificuldade de conseguir um emprego regular.
A rigor, mulheres, negros, crianças, idosos vem configurando a
face de uma informalidade precarizante e excludente que, antes de
tudo, é expressão de um País extremamente desigual, que aprofunda e
complexifica as desigualdades
sociais e onde há ausência de um Estado ativo na formulação de políticas
geradoras de emprego, na perspectiva e integração da população brasileira.
Nesse cenário de complexificação da Questão Social na década de 90/anos 2000, um sério agravante é o próprio posicionamento do Estado Brasileiro que não tem uma política pública de atuação no social capaz de viabilizar a integração dos excluídos. É fato inconteste que o Estado Brasileiro do Ajuste, subordinado aos circuitos do mercado, não tem assumido o social como prioridade, constituindo-se como um “Estado de baixa responsabilidade social”. O Estado parece mesmo desistir de enfrentar a miséria, a exclusão como opção estratégica na política de ação do Estado. Concretamente, envereda por um modelo de políticas sociais fundado na configuração do “social” como campo da carência, da caridade solidária, preconizando políticas focalistas, seletivas, voltadas para os mais carentes. A rigor, o Estado abdica de políticas amplas de enfrentamento da pobreza e da exclusão, na perspectiva da universalização de direitos. E, assim, o Estado transfere responsabilidades de atuação no “social” para o mercado e para a comunidade, fazendo emergir e consolidar-se fenômenos como: mercantilização de serviços sociais, de modo especial saúde e educação; filantropia empresarial; atuação do Terceiro Setor; protagonismo do voluntariado como ator social. Em verdade, o Estado Ajustador da década de 90/ anos 2000 transforma-se, simplesmente, num parceiro dentre outros, sem assumir o dever estatal de desenvolver as devidas respostas – respostas de peso – face ao drama social brasileiro.
Esse novo modelo de Política
Social do Estado Brasileiro de caráter focalista, fundado na carência,
estimulando a caridade privada, a solidariedade provoca a reemergência da visão
restrita do ASSISTENCIALISMO agora, com cara de “modernidade”, que
funciona à margem do estatuto da cidadania. É o que os especialistas denominam
de “refilantropização da Assistência Social” que colide, de
frente, com a perspectiva da política pública de Assistência Social, como política
de seguridade social, direito do cidadão e dever do Estado.
Inegavelmente, nesse
atual contexto do “Brasil Real” de ampliação e agravamento da pobreza, de
exclusão social e de baixa responsabilidade social do Estado do Ajuste que
abdica de políticas públicas efetivas de inclusão social, uma das expressões
concretas da Questão Social Brasileira - em verdade, uma das suas faces,
hoje, mais visíveis - é a perda dos padrões de proteção social dos
trabalhadores e dos setores mais vulnerabilizados da sociedade que vêem
seus apoios, suas conquistas ameaçados e, mesmo desmontadas, num processo
crescente de destituição de direitos. E,
assim, impõe-se na cena brasileira, os EXCLUÍDOS DESASSISTIDOS, que
sobrevivem em condições de extrema precariedade, sem acesso aos bens e serviços
essenciais a uma vida minimamente digna. São
FAMÍLIAS EXCLUÍDAS DA REDE DE PROTEÇÃO SOCIAL, SEM ACESSO AO DIREITO BÁSICO
DO TRABALHO E DA SEGURIDADE SOCIAL.
É neste amplo e
crescente contingente dos excluídos desassistidos que está inserido o público-alvo
do Programa de Ação Continuada. De
fato, as crianças e adolescentes, os idosos, os portadores de necessidades
especiais atendidos pelo PAC, no Brasil inteiro, integram os 60 milhões de
brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza ou, mais ainda, fazem parte do
exercício de 24 milhões de miseráveis que “vivem” (eis a questão!)
abaixo da linha de indigência, sobrevivendo em condições de extrema
precariedade de bens e serviços, imersos numa subvida, de subcidadãos.
Tomemos, como exemplo, o segmento específico das crianças de 0 a 6
anos, público preferencial do PAC. Segundo
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 1999, o Nordeste tem
61% de suas crianças de 0 a 6 anos em famílias cuja renda “per capita” é
de até meio salário mínimo, o Norte tem 41%, o Centro-Oeste tem 32% e o Sul
29%, o Sudeste 25%. Inegavelmente,
são crianças que sobrevivem em famílias imersas nos perversos circuitos da
exclusão social!
Em verdade, é
fundamental ver esse público-alvo do PAC a partir dessa sua inserção fundante
enquanto excluídos desassistidos para se ter, com clareza e lucidez, a
perspectiva de luta que se impõe no âmbito do repensar desse Programa de Ação
Continuada, qual seja, a de CONTRIBUIR PARA PROCESSOS DE INCLUSÃO SOCIAL de
CRIANÇAS/ ADOLESCENTE/IDOSOS / PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS QUE,
NECESSARIAMENTE, PASSAM POR PROCESSOS DE INCLUSÃO DAS FAMÍLIAS.
Nesta perspectiva, configuram-se duas questões-chave, no âmbito
da luta, aqui oficialmente deflagrada, pela redefinição do PAC:
·
“quem deve ter acesso ao PAC”: é a questão da focalização
x ampliação, colocada na agenda de discussão em termos do “aumento de
meta”, ou seja, ampliação de vagas para ampliar o âmbito de atendimento
do programa.
·
“acesso a ‘que’ no âmbito” do PAC: é a questão chave da
qualidade e do funcionamento efetivo dos serviços ofertados ao público,
configurada na agenda de debates em termos do “reajuste de per-capitas”, da
“flexibilização na aplicação dos recursos” e da “desburocratização”.
E, assim, fizemos um rápido
mergulho analítico no “Brasil Real”, delineando uma panorâmica da Questão
Social Brasileira Contemporânea que, de fato, propicia referenciais para
discutir a trajetória da Política de Assistência Social.
Coloca-se, então, a questão-chave:
Ao
longo desses doze anos de ajuste, como a Assistência Social vem se inserindo na
vida brasileira, face à crescente complexidade e agravamento da Questão
Social, nos marcos do agravamento da pobreza e da exclusão social?
Tal questão,
necessariamente, remete a um balanço avaliativo da construção da Política
de Assistência Social no cenário Brasil Real que é, justamente, o segundo
enfoque analítico dessa minha fala.
II – BALANÇO
AVALIATIVO DA “SAGA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NO ‘BASIL REAL’”
Neste balanço
avaliativo parto de uma constatação: nos últimos 13 (treze) anos, desde a
Constituição Federal de 1988, quando a Assistência Social é reconhecida
legalmente como política integrante do tripé da seguridade social, até hoje
– 2001 – a Assistência Social vem vivenciando a “saga da sua construção
na vida brasileira”, com avanços significativos em meio a sérios entraves e
limites. Mais precisamente, nessa
conjuntura histórica do ajuste brasileiro, vivenciamos um percurso lento,
persistente e contraditório de redesenho da Assistência Social como política
pública de Seguridade Social. Neste
percurso contraditório, tem-se avanços significativos na construção de um
sistema descentralizado e participativo da Assistência Social, com sérios
entraves estruturais na viabilização desse redesenho de política pública de
seguridade social, decorrentes das políticas do ajuste à nova ordem do capital
que, hoje, regem a vida brasileira, subordinando as políticas sociais ao modelo
de estabilidade monetária. Um resistente
Movimento social, com participação decisiva da categoria de assistentes
sociais, vem assegurando conquistas legais e institucionais, num esforço de
construção de mudanças qualitativas na Assistência Social, na direção de
uma política de Seguridade Social. A
ação efetiva desse Movimento sofre sérias restrições e limites no atual cenário
do “Brasil do Ajuste” de vulnerabilização do trabalho e de desmonte e
precarização da proteção social em que se reedita a cultura
assistencialista, conferindo-lhe resignificações no ideário liberal da
focalização, da seletividade, da solidariedade e da parceria.
Assim, hoje, na vida brasileira, com expressões próprias e
peculiares no interior do próprio Estado, configura-se um embate de
perspectivas e lógicas no campo da Assistência Social: a política pública de
Assistência Social no âmbito da Seguridade Social, na perspectiva da
universalização de direitos e o modelo de política social do Estado Ajustador
que se particulariza num tratamento assistencialista da Assistência Social como
dever moral, com caráter pontual e eminentemente seletivo.
A rigor, são perspectivas com diferentes direções sociais,
encarnando lógicas distintas, numa convivência contraditória nos Estados e
municípios brasileiros, constituindo um campo permanente de disputa, com
enfrentamentos e, também, misturas e fusões.
É precisamente neste contraditório campo de disputa política e
cultural que, nessa mais de uma década, a Assistência Social vem vivenciando
sua saga para se afirmar como política pública, enfrentando tensões, ambigüidades
e dilemas.
De fato, nesta sua
saga, árdua e inquietante, a Assistência Social enfrenta DILEMAS de
diferentes ordens e em distintos níveis. Dentre
esses, destaco o que denomino de DILEMAS FUNDANTES, no sentido de que estão
na base das tensões e ambigüidades vivenciadas pela Assistência Social no cenário
brasileiro contemporâneo. Na
verdade, são os “dilemas básicos”, os “grandes dilemas” vetores das
ambigüidades e tensões que comprometem o exercício da Assistência Social
como política pública. E, aqui,
quero destacar 3 (três) desses dilemas fundantes que, a meu ver, estão
na base da discussão nos percursos de redefinição do Programa de Ação
Continuada.
O primeiro desses dilemas é relativo à PRÓPRIA IDENTIDADE e POSSIBILIDADES DA ASSISTÊNCIA SOCIAL COMO POLÍTICA PÚBLICA DE SEGURIDADE SOCIAL. De fato, na configuração da política pública, tecida no interior do Movimento Social e oficializada na LOAS, a Assistência Social é definida, no âmbito da Seguridade Social, como política de enfrentamento da pobreza, garantindo mínimos sociais na perspectiva da universalização de direitos. A Assistência Social é definida como uma política de inclusão social.
Esta demarcação da identidade e da própria missão da Assistência Social exige uma reflexão teórico-política: nos marcos de uma sociedade fraturada, apartada mesmo, com problemas estruturais de exclusão pela vulnerabilização do trabalho – como o é a sociedade brasileira emergente do ajuste – a inclusão social, com a provisão de mínimos sociais, não é tarefa exclusiva e peculiar da Assistência Social. Compartilho a tese de Maria do Carmo Brant – em recente artigo sobre os dilemas da Assistência Social no Brasil – de que os mínimos sociais a serem garantidos são um projeto de sociedade, conquistados na luta política como resultantes de um pacto social. De fato, no século XX, os mínimos sociais são uma construção histórica, decorrentes dos conflitos de classe, das lutas sociais que impõe/repõe pautas gerais de necessidades humanas a serem atendidas.
Especificamente, no “Brasil Real”, a perspectiva da Inclusão Social está posta como um dos mais importantes dilemas da vida brasileira. Nos processos de ajuste, vem se verificando uma desmontagem das ancoragens na garantia de mínimos sociais de inclusão:
DESMONTAGEM DO TRABALHO, como grande integrador ou vetor de inclusão social.
DESMONTAGEM DO ESTADO como responsável pela oferta e distribuição das políticas públicas, fundamentadas no reconhecimento aos direitos sociais;
DESMONTAGEM DA SOCIEDADE, como capaz de colocar demandas e afirmar projetos de inclusão.
Neste contexto de desmontagem do trabalho, do Estado e da sociedade, a inclusão social exige um projeto de sociedade que viabilize mudança de direção política, mudanças de rumo na política econômica e nas políticas públicas de um modo geral.
Exige um
desenvolvimento com justiça social, assumindo a prioridade social como essência
do desenvolvimento econômico. E, como sustenta Maria da Conceição Tavares –
em recente artigo na Folha de São Paulo, neste mês de novembro – “ a
transformação do social no eixo do desenvolvimento
não significa, portanto, somente revalorizar, nos planos de governo, os
chamados aspectos sociais (...). Significa ir além disso e conceber programas
coordenados de investimento nesses setores, na infra-estrutura e nos sistemas
logísticos e de crédito interno, transformando-os em vetores do crescimento,
da distribuição de renda e do emprego. Deve significar também uma ocupação
mais radical do espaço, sobretudo dos recursos
naturais e das fontes de água e energia, e conceber e levar à prática
uma geopolítica interna soberana, auto-sustentável e pactuada em todos os âmbitos
da Federação.
Indiscutivelmente, tal projeto só será viável se construído na luta organizada das forças sociais, no redesenho das relações Estado/Sociedade. É preciso sujeitos coletivos, organizados em movimentos sociais, capazes de publicizar e impor na arena política o reconhecimento de determinados direitos pela sociedade e pelo Estado. É de fato a construção de um “Estado para a sociedade civil”.
Logo, no “Brasil Real – em que a exclusão social é, hoje, uma expressão da Questão Social resultante de processos estruturais de seletividade do ajuste e da precarização e subalternidade do trabalho – “NÃO SE PODE COBRAR DA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL A RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA PELA TAREFA SÓCIO-POLÍTICA DA INCLUSÃO SOCIAL que, indiscutivelmente, extrapola os limites de qualquer política pública de “per si”.
Isto posto, coloca-se,
então, uma questão-chave: o que cabe, então, a Assistência Social como
política pública de Seguridade Social? O
que, de fato, lhe pode ser cobrado, numa avaliação de sua missão como política
pública no interior da Seguridade Social?
A meu ver, cabe à política pública de Assistência Social deflagrar e/ou fazer avançar processos de inclusão social de segmentos excluídos, através da universalização de direitos. Tomando como público destinatário os que estão fora do sistema de proteção social, a Assistência Social pode torná-los alcançáveis pelas demais políticas sociais, garantindo-lhes mínimos sociais. Assim, a garantia de Mínimos Sociais configura-se como a referência básica na construção da política pública de Assistência Social no âmbito da Seguridade Social. Logo, garantir mínimos sociais constitui o referencial básico na delimitação dos programas de Assistência Social e, aqui, particularmente, na avaliação e redefinição do programa de Ação continuada – PAQ.
E, aí, tem-se posto um segundo dilema: a definição de mínimos sociais. Segundo Aldaiza Sposati, é esta questão de DEFINIÇÃO de MÍNIMOS SOCIAIS a PEDRA de TOQUE na MUTAÇÃO DA ASSISTÊNCIA SOCIAL de práticas fragmentadas para uma política social. E, nesta definição reside uma tensão: O QUE SÃO MÍNIMOS SOCIAIS?
Maria do Carmo Brant sinaliza que, na LOAS, os mínimos estabelecidos são mais implícitos do que explícitos e estão longe de alcançar o ideal civilizatório já atingido e que, assim, precisamos adensar o debate, a reflexão e a propositura da MÍNIMOS de QUALIDADE DE VIDA desejáveis à população brasileira.
E, nesse debate e proposição dos Mínimos Sociais é preciso demarcar as interpretações diferenciadas que vêm perpassando as discussões. Aldaíza Sposati demarca uma dupla interpretação de mínimos sociais: uma é a interpretação restrita, minimalista, fundada na pobreza e no limiar da Sobrevivência, e outra é a interpretação ampla e cidadã, fundada em um padrão básico de inclusão.
Em verdade, a perspectiva assumida em relação aos mínimos sociais confere uma dimensão qualitativamente diversa à Assistência Social como política pública.
Em coerência com a concepção e diretrizes da LOAS, a concepção implícita de mínimos sociais está diretamente vinculada ao padrão de qualidade de vida dos cidadãos, referenciado na busca da eqüidade possível. Em verdade, um olhar reducionista dos mínimos sociais é altamente perverso e cúmplice da visão liberal de focalização, voltada para a mera sobrevivência dos miseráveis. De fato, propor mínimos sociais não é partir de ajustes às condições dadas, mas, sim, construir outra referência na institucionalização da cidadania dos brasileiros. Logo, propor mínimos sociais, é definir o padrão societário de civilidade, implicando uma revolução da consciência da cidadania.
Nesta perspectiva, Potyara Amazoneida, em recente obra em que demarca subsídios à crítica dos mínimos sociais, trabalha com a noção de “básico social” como pré-requisito indispensável à satisfação de necessidades que, por serem humanas, não podem enquadrar-se ao nível de carências, do mínimo e devem caminhar na “perspectiva do ótimo de satisfação de necessidade” em termos de patamares mais elevados de aquisição de bens e serviços e direitos a partir do estabelecimento de provisões básicas.
No seu processo
argumentativo, sustenta, então, Potyara Amazoneida que as noções de “mínimo”
e “básico” guardam diferenças marcantes do ponto de vista
conceitual e político-estratégico. “Mínimo” tem a conotação
de menor, de menos, identificando-se com patamares de satisfação
de necessidades que beiram a desproteção social. Pressupõe, portanto,
supressão ou cortes de atendimento, tal como propõe a ideologia liberal. Já
“básico”, expressa algo fundamental, principal, primordial
que serve de sustentação indispensável e fecunda para ampliação no
atendimento a necessidades humanas. Requerer investimentos sociais de
qualidade para preparar o terreno a partir do qual maiores atendimentos
podem ser prestados e otimizados.
Considero essa definição conceitual de Potyara Amazoneida entre o “mínimo” e “básico”, uma via reflexiva fecunda para se pensar criticamente a Política de Assistência Social, no cenário da Questão Social Brasileira. Nesta perspectiva, configura-se uma questão de fundo:
Na sua prática efetiva nos municípios e estados brasileiros, a Assistência Social está conseguindo garantir básicos sociais na perspectiva da inclusão para segmentos excluídos, constituindo-se uma política pública ativa de enfrentamento da pobreza? Ou na sua prática concreta, a Assistência Social vem se limitando a mínimos sociais de sobrevivência, limitando-se a patamares que beiram a desproteção social?
A meu ver, é essa uma questão chave a ser discutida no repensar do PAC no seu atendimento a crianças/ adolescentes/ idosos/ portadores de necessidades especiais que sobrevivem em famílias aprisionadas nos perversos círculos da exclusão.
Por último, impõe-se
um terceiro dilema: a INTERSETORIALIDADE NA RELAÇÃO DA Assistência
Social COM AS DEMAIS POLÍTICAS SOCIAIS.
Inegavelmente, o exercício efetivo da missão da Assistência Social como política pública de seguridade social de deflagrar e/ou fazer avançar processos de inclusão dos excluídos, garantindo mínimos sociais ou básicos sociais na universalização de direitos sociais, a fim de tornar os destinatários da ação assistencial alcançável pelas demais políticas sociais implica, necessariamente, a articulação orgânica e permanente da Assistência Social com as demais políticas sociais. É preciso ter claro, como princípio norteador, que garantir mínimos sociais de cidadania, na perspectiva de um padrão de qualidade de vida é tarefa do conjunto das políticas públicas quando se torna prioridade do governo e da sociedade civil. É esse um pressuposto básico que nos instiga a pensar:
Como está sendo
trabalhada a Assistência Social em relação ao conjunto das políticas de
proteção social e do próprio Estado? Como
vem sendo trabalhada a intersetorialidade no interior da política de Assistência
Social?
As avaliações
apontam para uma tensão que fragiliza o exercício da Assistência Socail como
política pública: as dificuldades de viabilização da intersetorialidade
em termos da articulação permanente e sistemática da Assistência Social com
as demais políticas públicas.
Na prática, na estruturação e desenvolvimento dos Planos de Assistência Social, no encaminhamento dos programas e ações da Assistência Social, incorremos muito no vício tradicional de pensar a Assistência Social como política pública isolada, voltada para proteção dos vulnerabilizados pela pobreza e miséria. E, nesta visão isolada e restrita, fragmentada, escorregamos para pensar a Assistência Social como uma política que fica apenas minorando, compensando as mazelas da pobreza absoluta e da miséria. De fato, pensar, definir a Política de Assistência Social no âmbito do sistema de seguridade social exige articulá-la com as demais Políticas Sociais, estabelecendo as interfaces com essas políticas, na perspectiva do atendimento das necessidades básicas dos cidadãos. Em verdade, a Assistência Social é uma política que precisa ser pensada de maneira integrada com outras políticas sociais, garantindo a INTERSETORIALIDADE da Gestão e da Ação. A articulação, a interface com as demais políticas é condição para que os destinatários da Política de Assistência Social sejam, de fato, INCLUÍDOS no circuito de bens, serviços, direitos, oportunidades e relações.
E nessa perspectiva
da INTERSETORIALIDADE na relação com as demais Políticas Sociais é
importante atentar para um fenômeno típico do Brasil contemporâneo na dinâmica
de democratização das políticas sociais: é a nova alocação de competências
em que ações protagonizadas pela Assistência Social foram relocadas nas
demais políticas sociais como direitos do cidadão.
É o fenômeno denominado por Maria do Carmo Brant de EXPANSÃO DAS
FATIAS ASSISTENCIAIS INCORPORADAS ÀS DEMAIS POLÍTICAS SOCIAIS.
É a
Assistência Social ocorrendo por outras vias que não apenas a específica
onde se aloja a política setorial de Assistência Social.
De fato, isso é um avanço, revelando um nível de democratização
dessas políticas. O dilema, a tensão
está na desconsideração da política de Assistência Social no tocante a
essas fatias assistenciais, ficando a Assistência Social de fora”.
Falta a devida articulação numa perspectiva de complementariedade na
construção de redes de proteção social.
Tal fenômeno coloca
um dilema para a política de Assistência Social: como essa política,
enquanto política de seguridade social, vai se articular com essas fatias
assistenciais dessas políticas? Como
construir a política de Assistência Social transitando “por dentro” e não
“por fora”, construindo assim, redes de segurança.
A rigor, precisamos
fazer valer, por em prática a prerrogativa de Assistência Social de viabilizar
o monitoramento e avaliação das ações assistenciais presentes no conjunto
das políticas públicas.
Esses três dilemas
fundantes da Política de Assistência Social aqui delineados, colocam para esta
I Conferência, a exigência de discussão básica: a perspectiva do Programa
de Ação Continuada, enquanto constituinte da Política de Assistência Social.
Mais especificamente, o trabalho desenvolvido pelo PAC, nesta ampla rede de
entidades executoras e prefeituras, tem conseguido deflagrar e ou fazer avançar
processos de inclusão social de famílias excluídas, onde estão inseridos os
segmentos sociais atendidos pelo Programa?
Essa discussão básica
coloca em pauta uma questão decorrente: O que fazer, como atuar
estrategicamente para viabilizar o potencial de inclusão do pac
no enfrentamento da pobreza?
A partir desse debate
fundante, ganham relevo e significado as discussões específicas constituintes
da agenda de reivindicações dessa I Conferência.
Espero que o debate
fecunde e consiga formular proposições no sentido do repensar do PAC, tendo no
horizonte o grande dilema brasileiro contemporâneo: a INCLUSÃO DOS EXCLUÍDOS.
Compartilho da vontade
coletiva de que o nascimento deste fórum nacional seja, de fato, um momento de
criação abrindo um espaço de debate, de articulação, de reconstrução, um
espaço em que possamos consolidar novas trajetórias na árdua “saga de
construção da Assistência Social”, tendo sempre presente, em nosso
horizonte, que o outro Brasil que queremos, é filho dileto de nossa luta
persistente e corajosa!
Para ler o Resumo da Conferência Magna Clique
Aqui
* Assistente Social, Mestra em Serviço Social, Doutora em Sociologia, Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará.